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sábado, 14 de março de 2015

As Passeatas - Dúvida Cruel

Da série: Conversas de Botequim


- Cara, estou na maior dúvida...

- De quê?

- Não sei se vou à manifestação de sexta ou na de domingo.

- Estou por fora, que manifestações são essas?

- Manifestação política. O Sindicato quer que a gente vá à passeata de sexta. Tem condução e sanduíche. E se a gente vestir uma camisa vermelha que eles vão emprestar, ainda pagam trinta reais.

- Puxa! Legal! Vai nessa então!

- O problema é que o patrão vai cortar o ponto de quem faltar ao trabalho na sexta.

- Xiii! E você não é funcionário público, não é mesmo?

- Não. Se fosse era mais fácil.

- Mas a manifestação de domingo não tem ponto nenhum. Vá no domingo!

- Acontece que a manifestação de domingo é contra a manifestação de sexta, entendeu?

- Ah, são duas manifestações rivais?

- Exatamente! Se eu for à de domingo vou ficar contra o sindicato.

- E aí não tem condução, sanduíche e nem trinta reais...

- Claro que não! E pior, vou ficar mal visto pelo pessoal.

- Entendi. O melhor então é não participar de nenhuma!

- Mas o patrão reuniu o pessoal e disse que dará um abono de trinta reais para quem for à manifestação de domingo.

- Ah! O patrão apoia a passeata de domingo e é contra a de sexta...

- Acho que é isso.

- Para que servem essas manifestações?

- Não sei... Dizem que a de sexta vai gritar contra a política econômica e a roubalheira na Petrobrás...

- E a de domingo?

- Dizem que vai gritar contra a roubalheira da Petrobrás e contra o governo...

- Não é a mesma coisa?

- Não sei. O que sei é que não posso perder o emprego e nem ficar mal com o Sindicato.

- Que problemão! Ainda bem que eu não trabalho...

- Está de bolsa família?

- Graças a Deus! Não preciso me envolver nessa política.

- É mesmo. Garçom! Mais duas cervejas!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

As receitas municipais

Da série: Conversas de Botequim


- Meu querido Atanásio! Que prazer em vê-lo aqui na Capital!
- Doutor Pafúncio! Eu sabia que o encontraria aqui neste botequim! Como vai essa força?
- Tudo bem! Conseguiu dar uma escapada?
- Ah, eu tive que participar de uma reunião com o Governador... Um monte de Prefeitos... Fiquei lá no meio ouvindo discursos... Um saco!
- Vida de Prefeito é complicada... Vai beber o quê? Estou na Majestade...
- Muito boa! Mas eu vou de Dama da Noite, lá do vale do Jequitinhonha.
- Vou te acompanhar... Garçom!! Duas Dama da Noite Ouro aqui pra nós! E água mineral São Lourenço pra hidratar!
- Sabe, Pafúncio, eu estava precisando ter uma conversinha com você...
- Estou às ordens.
- Você, com a sua experiência, me diga: como faço para aumentar a receita do meu Município?
- Poxa... O teu Município é pequeno... A população não chega a vinte mil habitantes não é mesmo?
- Exatamente...
- Você vive praticamente do FPM que a União repassa, não é?
- Isso mesmo, mas eu não tenho como aumentar esse FPM?
- Só se a população crescer, der um pulo! Ou a receita da União aumentar!
- Mas todo mundo diz que a receita da União aumenta e não vejo isso no FPM!
- A receita da União aumenta nas contribuições federais. O IPI é usado como instrumento de incentivo ao consumo e as alíquotas do Imposto de Renda não podem aumentar porque prejudicaria as pessoas e empresas ricas.
- Então, o FPM fica na mesma?
- Fica na mesma, a não ser que o Governo instale no seu Município um presídio de uns vinte mil internos. Aí a população aumenta...
- Você está brincando... Não quero um presídio federal na minha cidade!
- Então trate de aumentar a população! Proíba a venda de camisinha, qualquer coisa!
- Ah-ah, você sempre engraçado! Não tem outro jeito?
- Bem, você cobra o IPTU?
- Não posso! O povo de lá nunca pagou esse negócio de IPTU! Já é tradição!
- Isso é renúncia de receita. O Tribunal de Contas não cria caso?
- O Tribunal que se meta na vida dele! Se eu cobrar IPTU nunca mais serei eleito! Nem de presidente do clube de pesca!
- Tudo bem, tudo bem, não precisa exaltar-se! E a cota-parte do ICMS?
- Não dá pra nada! O índice do meu Município tem um monte de zero na frente da vírgula, aquilo não melhora!
- Alguém controla este índice?
- Ora, claro que não! Isso é problema do Estado, não é?
- Se deixar na mão do Estado, não melhora mesmo... E o ISS?
- Só quem paga é o barbeiro. Aliás, já foi me procurar pedindo isenção.
- E os médicos, advogados, contadores?
- O meu Secretário tentou cobrar, mas eles disseram que são isentos...
- Isentos por quem?
- O meu antecessor mandou isentar todo mundo... Tem um decreto...
- Decreto isentando? Esta é ótima!
- Você não tem alguma ideia que não seja cobrando do meu povo?
- O seu partido é o mesmo do Governador?
- Não! O meu partido é adversário.
- Então, mude de partido... Puxa! Nota dez pra essa Dama da Noite! Que beleza de cachaça!
- Eu não disse? Vamos pedir outra dose? Mudar de partido é uma ideia...


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A numeração das casas

Da série: Conversas de Botequim



- Aceitas mais um trago?

- Aceito, tchê! Mas vamos trocar a sanga funda por uma mineira? E pedimos como tira-gosto um torresminho no capricho!

- Apoio a ideia, mas sabes que a mineira tem graduação alcoólica mais alta...

- Vamos de boazinha! Tem 42% e é das melhores de Salinas.

- Concordo! Torresminho pede uma mineira... Garçom!! Duas boazinha e uma porção de torresmo!!

- E quando posso conhecer tua casa nova?

- Quando o amigo quiser! Rua Dr. Jan, quadra 16, lote 12.

- Lote? Tua casa ainda não tem número?

- Ainda não! Está errado?

- Acho que está errado. Tu já não tens o habite-se?

- Tenho! Já te contei a trabalheira que deu.

- E a Prefeitura não deu o número da tua casa?

- Não deu! Teria que dar?

- Entendo que sim! A numeração das casas é feita pela Prefeitura.

- Pois não tenho número! Continuo usando a numeração da quadra e do lote.

- Todas as casas da tua rua estão assim?

- Boa pergunta! A casa do lado da minha tem número, mas eu acho que o dono inventou um número.

- Não pode! Quem dá o número é a Prefeitura!

- Mas a Prefeitura não deu número. O número dele é 14, o mesmo do lote dele.

- Se for assim, tu pões o número 12 na tua.

- Não posso! O outro vizinho já inventou o número 12 pra casa dele.

- Barbaridade! Tu ficaste sem número!

- Eu posso colocar o número 13...

- Afasta-te deste número aziago! E número impar é do outro lado da rua.

- E como eu faço para dar número na minha casa?

- Não tens que fazer nada! Isto é assunto da Prefeitura! A numeração segue a distância da casa até o início da rua, tem uma técnica a ser usada.

- E a Prefeitura sabe disso?

- Se não sabe, deveria saber! E quem dá número é a Secretaria de Urbanismo, onde ficam os técnicos desse assunto.

- Então, o número da minha casa que está no carnê do IPTU não serve pra nada?

- Recebeste o carnê do IPTU já com número de casa?

- Recebi! Deram o número 1.612. Parece que juntaram os números da quadra e do lote.

- Barbaridade! Isso é uma loucura! Tu não reclamaste?

- Eles disseram que este número serve somente para IPTU.

- E a Secretaria de Urbanismo sabe disso?

- Não tenho a mínima ideia!

- Que desgraceira danada! Está parecendo a minha rua...

- Tua rua também é número de quadra e lote?

- Não! Mas tem números repetidos! A minha casa é de número 8 e lá no final da rua tem outro número 8. Ninguém sabe onde começa a rua...

- Isso deve dar uma grande confusão...

- Antigamente dava, mas agora todo mundo já sabe que a minha casa é 8A e a outra é 8B.

- Foi a Prefeitura que fez isso?

- Claro que não! Nós mesmos fizemos a alteração. O importante é que o carteiro já sabe.

- Meu amigo, se a Prefeitura não consegue acertar nem o número das casas...

- Imagine o resto!!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Os nomes de ruas

Da série: Conversas de Botequim




- Analgiso, meu irmão! Tudo justo e perfeito contigo?

- Tudo perfeito! Que bebes?

- Uma sangafunda legítima! Vais junto?

- É claro! Garçom!! Duas sangafunda aqui pra gente!

- E afinal! Mudaste de endereço?

- Ah, finalmente! O tal do habite-se demora mais que promessa de governo, mas consegui juntar todos os documentos, aleluia!

- O que pediram para liberar o habite-se?

- Tenho aqui no bolso a relação... Vou ler: requerimento, inscrição no IPTU, alvará de construção, atestado do engenheiro, certidão negativa do terreno, pagamento do ISS, comprovante do INSS, três cópias do projeto aprovado, o habite-se do corpo de bombeiros, certidão de comprovação da ligação da água e esgoto, declaração de ligação da luz pela concessionária, laudo de estanqueidade, ART da engenharia, certidão de controle sanitário, certidão da coleta de lixo, comprovante de instalação de hidrômetro, três cópias da escritura...

- Chega! Chega! Já estou satisfeito...

- Mas tu pediste todos os documentos e ainda tenho mais duas páginas!

- Não é preciso, irmão! E qual é o seu novo endereço? Ainda não tenho!

- Tenho aqui um cartão... Este é o nome da rua...

- Baá! Que nome é este? Dr. Jan Jarkwlhnteskorovski? Como se pronuncia isso?

- Ninguém sabe! A rua é conhecida como Dr. Jan, ninguém consegue pronunciar esse sobrenome.

- E quem foi esse Dr. Jan? Para ser nome de rua deve ter sido uma pessoa importante.

- Ninguém sabe! Dizem que foi tio-bisavô de um vereador.

- Mas pode isso?

- Ora, ninguém se importa. Todo mundo escreve Dr. Jan, ficou fácil. Até o carteiro sabe onde fica a rua Dr. Jan.

- Bueno, neste ponto tu estás certo. Muito melhor que o nome da minha rua.

- Mas a sua rua tem um nome fácil: Rua Dona Maria, não é este?

- Este é o nome que usamos, mas o nome verdadeiro é outro.

- E qual é o nome verdadeiro?

- Tenho aqui num cartão. Podes ler!

- Barbaridade! Rua Dona Maria da Aparecida Consagrada de Jesus Batista Ildefonso Pederneira Coimbra Leitão de Arroio Grande. Que légua de nome!

- Por isso ninguém usa! Até o CEP é Rua Dona Maria, mas o nome oficial é este aí. Tens que ver a placa com o nome da rua. A letra é tão miudinha que ninguém consegue ler!

- E quem foi essa Dona Maria de não sei o quê?

- Dizem que foi a matriarca da família do Vereador Ildefonso.

- E que fez de tão importante essa senhora?

- Bueno, dizem que ela se casou com um antigo comendador.

- E quem era esse comendador?

- Ninguém sabe direito.

- Nem o nome dele?

- Ninguém sabe, porque o nome dele era muito comprido.

- Vamos, então, brindar ao Dr. Jan e Dona Maria.

- Tim-tim para os dois... Que delícia essa sangafunda.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Manicômio Fiscal – o ISS


Da série: Conversas de Botequim



- Não acredito!! Quem é vivo sempre aparece! Arria teu corpo nesta cadeira e beba um trago!

- Garçom!! Traz uma Casa Bucco tradicional!

- Pois estou bebendo a sergipana Reserva do Barão... Muito boa!!

- Fico na gaúcha. E, então, quais as novidades da Prefeitura?

- Muito trabalho! Acabei de fiscalizar um salão de barbeiro...

- Encontrou diferença?

- O esperto pagava ISS de uma cadeira e lá tem duas! Dobrei o ISS!

- Desculpe a ignorância, mas cadeira paga ISS?

- É o modo de dizer. Faço a estimativa pelo número de cadeiras.

- E os Bancos? Estão pagando o imposto?

- Banco é mais difícil! Tem que examinar a contabilidade, uma montoeira de papel, muito complicado...

- Por que não cobra pelo número de caixas e de mesas de atendimento?

- Não posso!! Seria ilegal!!

- Mas se cadeira de barbeiro pode...

- Muito diferente! Bancos têm advogados, contadores, consultores. Eles vão logo derrubar o lançamento!

- E barbeiro?

- Não tem nada! O que a gente manda ele cumpre.

- E taxistas? Pagam o ISS?

- É claro! Faço o cálculo por veículo.

- Carro paga ISS?

- Não! É maneira de dizer. A estimativa é por conta do número de carros.

- Mas um taxista não tem um só carro?

- Nem sempre! Tem taxista com várias autonomias! Ele aluga os carros para outros. E esses outros não são inscritos na Prefeitura.

- E as operadoras de cartão de crédito? Pagam ISS?

- Não! Elas dizem que não são daqui...

- Mas as lojas que aceitam cartão e os Bancos que efetuam as operações estão aqui!

- As operadoras dizem que não têm nada com isso.

- E fica por isso mesmo?

- Fica... Elas têm advogados, contadores, consultores...

- Entendo... E as grandes empresas de informática? Pagam ISS?

- Aqui não... Elas estão estabelecidas nas nuvens.

- Então, elas só podem ser fiscalizadas de avião?

- Parece engraçado, mas é mais ou menos assim.

- E as grandes construtoras?

- É tudo deduzido. Materiais, mão de obra assalariada, insumos... Não sobra nada.

- Bem, pelo menos ainda tem os hospitais...

- Deduz tudo: medicamentos, alimentação, a cama do paciente é locação de bens móveis, fazem ressarcimento das despesas de energia, água, telefone...

- Mas sobram os médicos...

- Eles formam sociedades de profissionais. Pagam uma merreca.

- Afinal, quem paga esse tal de ISS?

- Bem, deixa ver... Barbeiro, Cabeleireiro, Taxista, Mecânico, Borracheiro... Borracheiro não! Ele agora é microempreendedor, só paga R$5,00.

- Então, de gente graúda só tem os titulares de cartórios?

- Seria, se eles não fossem isentos aqui no Município.

- Sobram os hotéis...

- Não emitem nota fiscal! Entrega uma folha de computador com a conta e o turista paga e vai embora. Turista nem sabe o que é nota fiscal...

- Quer experimentar a Reserva do Barão? Excelente cachaça!

- Não. Fico na Casa Bucco.

- Garçom!! Mais duas aqui! É melhor deixar logo as garrafas. Esta conversa vai demorar...