domingo, 31 de janeiro de 2016

A Petrobrás na Comunidade

As obras inacabadas do COMPERJ

Operários em greve na COMPERJ
Há três anos ausente, eis que retorna à Comunidade o pedreiro Anastácio, mais conhecido como Bokão, na forma que ele costumava assinar os orçamentos de obras. Lá estava ele sendo cumprimentado pela turma na frente da banca de jornais do Daniel. Todos estavam felizes, Bokão é boa gente, além do mais, ele é quem resolvia os problemas de consertos em nossas casas, o único em quem a gente confiava. Durante a sua ausência, Chinelinho, profissional avulso, pau pra toda obra, tentou assumir a posição, mas foi um desastre, não sabia nem fazer o traço do concreto. Todos sentiam saudades do Bokão.
- E aí, Bokão! Que prazer em vê-lo!
- Bom dia, doutor! Como vai dona Leilane?
- Vai ficar feliz com o seu retorno, um monte de coisas pra consertar lá em casa. Você veio pra ficar ou está de passagem?
- Vim pra ficar, doutor. As obras da Petrobrás acabaram, entendeu?
- Você estava em Itaboraí na obra do COMPERJ, não é?
- Não! A obra do COMPERJ já parou há muito tempo, entendeu? Eu estava terminando uma obra em Macaé, de uma firma estrangeira, entendeu?
Bokão tem a mania de encerrar suas frases com o tal ‘entendeu?’.
- E não tem mais nada lá pra fazer?
- Nada importante, entendeu? Parou tudo, e pra fazer biscate eu prefiro fazer aqui onde moro, entendeu?
Dona Zica das Tainhas aproveitou:
- A parede da minha casa está toda rachada, Bokão. Você pode dar uma olhada? Estou com medo de cair...
- Passo lá na segunda-feira, Dona Zica.
Dona BPereira, sempre atrevida:
- Bokão, a sua mulher andou reclamando da falta de dinheiro. Você não ia ficar rico lá na Petrobrás?
Bokão deu um sorriso amarelo.
- Sabe que é, a gente pensa, a gente sonha, entendeu? No primeiro ano até que foi bom, sobrava um bom dinheiro, entendeu? Mas, depois, atrasavam o pagamento, cortaram a ajuda na pensão, cortaram o dormitório, foi uma barra, entendeu?
Daniel perguntou:
- Você foi demitido?
- Eu e todo mundo, entendeu? Está tudo parado, obra inacabada, tudo estragando, enferrujando, dinheiro jogado fora, entendeu?
Entrei na conversa:
- Parece que eles vão retomar a obra de uma refinaria.
Bokão coçou a cabeça:
- Acho que dá pra salvar alguma coisa, entendeu? Uma boa parte vai ter que refazer.
Henheco, o eletricista comunista, resolveu participar:
- A Petrobrás está quebrada! O melhor é vender logo tudo pros gringos, colocar uma faixa de vende-se no mapa do Brasil!
- Mas quem vai comprar uma porcaria dessa? – perguntou Daniel.
Dona Zica das Tainhas comentou:
- A minha casa eu não vendo. Está toda rachada, mas é minha...
Dona BPereira deu aquela sonora gargalhada:
- Quase vendeu! Se não fosse eu, você venderia!
Dona Zica, com voz tímida:
- É verdade, meus filhos queriam que eu vendesse pra pegar a parte deles. O pastor queria 15% de dízimo. O que ia sobrar não dava pra comprar outra.
Dona BPereira falou alto:
- Cambada de safados! Queriam te enganar, mas não deixei!
- Fez muito bem – disse Chinelinho.
E Bokão deu um sorriso:
- Pena que não tinha uma BPereira na Petrobrás, entendeu?
Todos nós entendemos. Não tinha uma BPereira na diretoria e nem no Conselho da Petrobrás. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Zika Vírus na Comunidade

Fui de tarde comprar cigarro na padaria e encontrei a turma reunida em frente da banca de jornais do Daniel. Dona BPereira, dando de mamar ao mais recente filho, dominava a discussão:
- Não vem que não tem! Na minha casa ela não entra!
O que foi, o que não foi, Daniel me explicou:
- A Vigilância foi na casa da BPereira pra botar um pozinho na caixa d’água.
Dona BPereira interveio:
- Aquilo é broxante, doutor! Não é nada pra matar mosquito não! Pensam que sou otária?
Tentei apaziguar:
- Acho que é a campanha contra o zika vírus.
Henheco, o eletricista comunista, entrou na discussão:
- Doutor! Este vírus é mais uma invenção das multinacionais pra vender mais remédio! Me diga, doutor, há quanto tempo existe esse mosquito?
- Bem, Henheco, não sei... Acho que existe a centenas ou milhares de anos...
Ele gritou:
Então!! E só agora esse vírus é descoberto! Isso é jogada pra vender repelente! É tudo feito em laboratório!
Chinelinho esperneou:
- Cambada de sacanas! A mesma coisa eles fizeram com a AIDS!
Henheco aproveitou a deixa:
- Bem lembrado! Eles inventaram a AIDS pra acabar com os homossejuais!
Ele queria falar homossexuais, mas tudo bem. Dona Zica das Tainhas comentou:
- Eu me lembro, coitado do Pitéu, pessoa maravilhosa, educada...
Pitéu era um jardineiro na comunidade. Era gay e morreu com AIDS. Tentei intervir:
- Gente, AIDS não pega só em gay...
Daniel resolveu participar:
- Mas a doença começou numa cidade americana onde o prefeito era gay. Muita coincidência, não é, doutor?
E Henheco:
- Pois é! Essa burguesia nojenta queria acabar com os homossejuais como sempre quis acabar com todas as minorias!
O vigia Bill, sempre de calça moletom e sem camisa, entrou na história:
- O meu patrão me mandou tirar todos os pratos dos xaxins e varrer o quintal todos os dias. Ele não quer água depositada nem em cima de folha caída no chão.
O Bill sempre repete as ordens do seu patrão.
E dona BPereira:
- Eu disse pra mulher: você só bota pozinho na minha caixa d’água se espalhar na lagoa. A lagoa, doutor, está cheia de mosquitos e não fazem nada!
- E o que ela respondeu?
Dona BPereira deu uma risada:
- Ah, Ah, ela disse que o trabalho dela é só nas casas. Aquilo é broxante, doutor! Não é nada pra matar mosquito!
Henheco estava a toda:
- Broxante pra diminuir o número de pobres! Não tem emprego pra todo mundo, então, o negócio é diminuir a população!
Caramba! Pura teoria da conspiração. Se fosse ao tempo da ditadura já estaríamos presos! Falei mais alto:
- Mas, gente! Precisamos ajudar no combate desse mosquito, cada qual cuidando de sua casa, não deixar água depositada, limpar o quintal! O mosquito que nasce numa casa pode atacar em outra!
Dona Zica das Tainhas:
- Ontem eu matei um mosquito com uma chinelada.
E Pezinho, sentado no banquinho:
- Chinelada quem deu foi o Guerreiro no jogo contra o Atlético.
Pezinho só fala e pensa em futebol.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Império ataca nos Tapajões!

Ao fundo, majestoso navio singra as águas do Tapajós. Em frente (que coincidência!), o barquinho que estou vendendo, muito bom pra pesca do pirarucu. Os interessados, cartas para redação.
O enorme navio invade as águas do Tapajós e ancora na orla de Santarém. Mais de mil espiões do império, todos com mais de setenta anos de vida útil, lançam seus olhos belicosos e suas bocas famintas em direção às riquezas da Amazônia. Espantam-se com as águas cristalinas do Tapajós, sua imensa extensão, profundidade e largura. Atônitos, chegam à conclusão que o Mississipi seria um mero igarapé na bacia amazônica.

Os espiões fazem conta: a água é elemento essencial à vida e custa um valor médio de cinco centavos de real por litro. Já o petróleo, custa U$0,25 por litro, ou R$1,00 (na base de 158 litros por barril e valendo U$40.00). Mas o petróleo é substituível por outros produtos e a água, não. Chegará um dia em que a água será mais valiosa do que petróleo, e o seu preço não será mais de ínfimos cinco centavos por litro. E a nação rica em água será poderosa. E, por este motivo, visada pelo Império. No Brasil, somente o aquífero Alter do Chão, reserva subterrânea localizada sob os estados do Amazonas, Pará e Amapá, tem um volume de 86 mil km³ de água doce, potável e despoluída, o suficiente para abastecer cem vezes a população mundial. Importante: o aquífero Alter do Chão nada tem a ver com a mais bela praia fluvial do planeta, Alter do Chão, situada em Santarém. Mas o aquífero passa por baixo de Alter do Chão, talvez daí o seu nome, ou vice-versa.

Os espiões continuam fazendo conta: cada pessoa necessita de 3,3 m³ de água por mês, ou 110 litros de água para atender necessidades de consumo, higiene e outras coisas. A vazão do Rio Amazonas é de 200 mil m³ por segundo, ou 200 milhões de litros por segundo! A dizer, então, que somente a vazão do Rio Amazonas daria para manter mais de 1,818 milhão de pessoas por mês, e isso com apenas um segundo de vazão!

A nossa teoria da conspiração conclui que o império está de olho na nossa Amazônia, no nosso Tapajão! E esses velhinhos simpáticos, disfarçados com aquela vestimenta ridícula de caçador de jacaré, ou integrante de tour-safari no Central Park de Nova York, já devem estar enviando informações secretas para o grande ataque, que pode ser à bala ou a dinheiro (levando em conta os nossos políticos, mais provável que seja a dinheiro). O Império ataca! E a piorar, o mercenário Harrison Ford está agora do lado dele!

Nota: É provável que haja algumas falhas nos cálculos acima, mas, de qualquer forma, o recado foi dado.