sábado, 26 de novembro de 2016

O marketing enfadonho

Na Cafeteria

Dirijo-me ao caixa:

- Bom dia! Um café expresso, por favor.

- O senhor é cliente fidelidade?

- Hem? Não sei... Eu só quero um café expresso.

- Diz o seu CPF para ver se o senhor é cliente fidelidade.

- Moça, eu não vou lhe dar o número do meu CPF. Eu só quero um café expresso!

- Se o senhor não der o número do CPF, não poderei dizer se o senhor é cliente fidelidade!

- A senhora poderia me dizer, por favor, qual é o preço de um café expresso?

- (a contragosto) R$ 6,00.

- Aqui está o dinheiro.

- O senhor tem R$ 1,00 para facilitar o troco?

- Não!

- Está aqui a nota. O senhor pode se dirigir ao atendimento.

Dirijo-me ao atendimento:

- Boa tarde! Um café expresso, por favor (coloquei a nota no balcão).

- O senhor é cliente fidelidade?

- Não senhora! Um café, por favor!

- O senhor não quer se cadastrar como cliente fidelidade? Basta preencher...

- Moça! Eu não quero ser cliente fidelidade! Eu só quero tomar um bendito cafezinho!

- Qual o acompanhamento?

- Não quero acompanhamento! Só o café!

- O senhor pode se sentar numa mesinha que nós levaremos o café.

Na mesinha:

- Boa noite! Pode me trazer o meu café expresso, por favor.

- O senhor é cliente fidelidade?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Allegro ma non troppo

- Para assinar esse contrato quero 10% de comissão!

- Então, preciso aumentar o valor do contrato!

- Aumente! Recalcule o valor e altere o contrato!

- Como você quer receber a sua comissão?

- Em espécie! Pode ser em dólar ou euro, mas no câmbio do dia!

- Onde entrego?

- Ao meu cambista! Ele entrará em contato por telefone. Ele vai dizer: “alegro ma non troppo”.

- Que porra é essa?

- É a senha. Significa ligeiro, mas não muito.

- Você confia nele?

- Claro! Se me trair ele morre!

- E se o Tribunal de Contas desconfiar do valor do contrato?

- Todos os conselheiros estão na minha mão!

- E a Controladoria?

- É minha!

- E a Assembleia de Deputados?

- Todos comem também!

- E o Ministério Público?

- Pode gritar, mas não passa na Justiça!

- Por quê?

- Os desembargadores são meus amigos e me devem favores!

- E a Receita Federal?

- Se surgir algum problema, falo com o Ministro e ele resolve.

- E a Polícia Federal?

- Ela só age se for mandada. E ninguém vai mandar.

- Tudo tranquilo, então?

- Tranquilíssimo!

- Bem, então vou embora preparar o novo contrato.

- Não demore!

- Ah, antes de sair, você já ouviu falar num juiz lá do Paraná, chamado Sérgio Moro?

- Não... Deveria?

domingo, 20 de novembro de 2016

O exercício da fiscalização – lenda urbana

Apranagildo Vicentão, lídimo Fiscal de Tributos do Município de Bolinha, cumpridor fiel da letra da lei, exigiu ser ordenado a vistoriar as contas de um Hospital Psiquiátrico, cuja inadimplência tributária era avassaladora e vergonhosa, tendo aquele manicômio, como acionistas majoritários, pessoas poderosas, da mais alta lavra, todas agraciadas de comendas honoríficas e gozando das regalias dos arrolados em diversas operações policiais e judiciais, tudo a abrilhantar os seus currículos, inclusive seus notórios conhecimentos de lavagem de dinheiro.
  
Os chefes receberam com surpresa e reticência o pedido do servidor, haja vista a poderosa organização a ser enfrentada, mas, diante das ameaças do Fiscal em denunciar ao Ministério Público a indecente omissão do poder fiscalizatório, resolveram aceitar o pedido, apesar das inúmeras ressalvas e advertências.

Foi convencido, porém, por seus chefes, a seguir em missão acompanhado por um séquito policial. E, assim, Apranagildo foi conduzido durante o percurso em viatura policial de sirenes abertas e luzes intermitentes. No interior do veículo, já organizava o papelório da formalização do levantamento fiscal e alardeava aos policiais acompanhantes a importância do seu árduo trabalho.

Ao ingressar no pátio do estabelecimento hospitalar, foi recepcionado por enfermeiros protocolares que o conduziram para o interior do prédio numa maca dobrável de rodas, antes de vesti-lo com uma camisa de força. Aquela calorosa recepção fez o Fiscal sentir-se lisonjeado, a pedir aos funcionários da casa que deixassem, pelo menos, suas mãos soltas e pudesse deste modo lavrar as ocorrências e respectivas autuações.

No interior do Hospital, Apranagildo foi recebido por um médico de plantão que imediatamente prescreveu a aplicação de lítio, medicamento antipsicótico para estabilização do seu humor. E a levar em conta a insistência do Fiscal de receber e examinar os documentos do Hospital, o médico reforçou o tratamento com o uso ácido valpróico, carbamazepina, lamotrigina e outras drogas antialucinógenas e antidepressivas.

Ofereceram ao Fiscal, como local de trabalho, um pequeno quarto, decorado com acolchoados nas paredes e no teto, onde, enfim, Apranagildo pôs-se a trabalhar no preenchimento de suas notificações e intimações, que eram despachadas por baixo da porta forrada e sempre trancada a ferro e aço.

Por não ter recebido os documentos requeridos, o Fiscal arbitrou o imposto e efetuou o lançamento devido, sem antes tomar o cuidado de notificar o contribuinte. Tudo encaminhado protocolarmente por debaixo da porta, nos termos da lei em vigor.

E Apranagildo ainda lá está, a discutir com os internos as questões complexas do direito tributário, do princípio da legalidade, do direito de ir e vir e suas avenças. O parecer médico vetou a sua saída do Hospital, mesmo com o uso de tornozeleiras. Considerou o Fiscal um perigo para a sociedade.