domingo, 6 de março de 2016

O CLONE


Da série: Contos Fantásticos

Logo ao dar entrada no hotel na cidade de Nova York, dei de cara comigo. Lá estava eu, sentado na poltrona do saguão, vestindo paletó azul marinho e calça cinza, como eu uso, e gravata de laço duplo, do jeito que eu gosto. Fui ao meu encontro e ele sorridente cumprimentou-me.

“Você veio para o Congresso do Padrão Standard?”, perguntou-me o eu americano. “Sim, vim aprender alguma coisa com vocês”, respondi humilde. Expliquei que eu era brasileiro e representante da Associação Brasileira dos Clones Standard - ABCS, e estávamos enfrentando sérios problemas no Brasil. “Aqui também”, disse ele, “o padrão standard tem o maior número de clones nos Estados Unidos e muitos dos nossos estão exercendo profissões do padrão popular, o que é um absurdo. Se não fosse a vinda de latinos e asiáticos do padrão popular a crise seria muito maior”.

Na conversa, contei que a situação no Brasil era meio diferente. A maioria da população era constituída de clones do padrão popular. Um pequeno número de pais conseguia dinheiro suficiente para comprar DNA do padrão standard para seus filhos, pois o SUS só oferece padrão popular, e a bolsa família não é estendida às pessoas do padrão standard. “Quantos padrões existem no Brasil?”, perguntou-me. “Inicialmente, respondi, copiamos o modelo americano de três padrões somente: o Máster, o Standard, e o Popular. Mas o governo achou pouco e criou o Top Máster, especial para funções de presidentes da república, de multinacionais, de estatais, ministros da Justiça e do Estado, banqueiros, senadores, conselheiros da Petrobrás e alguns jogadores midiáticos de futebol. O padrão máster ficou reservado para deputados, juízes, procuradores, promotores, governadores, executivos de multinacionais, diretores de empresas brasileiras de grande porte, advogados criminalistas e técnico-professores de futebol”.

“Bem, disse ele, pelo menos o padrão standard continua bem diversificado no seu país. Todas as demais funções intelectuais permanecem restritas ao nosso padrão”. “É verdade”, concordei, “mas houve uma pressão dos representantes do padrão popular e agora surgiu um projeto de lei criando um novo padrão de clones, inferior ao popular, já apelidado pelo povo de padrão bundão. Já imaginou? Se este projeto for aprovado os populares vão querer aumentar de status e atuarem nas funções do standard”.

O eu americano ficou calado, pensativo, da mesma forma que eu me comporto quando estou refletindo, ou quando estou na privada. Aproximei-me e disse: “Bom tempo aquele em que as pessoas nasciam naturalmente e com a inteligência que Deus lhes deu”.  “Não fale assim!”, alertou-me nervoso, “Isso é conversa de conspiração terrorista! O FBI anda investigando uma contaminação do DNA com os genes do suposto falecido Bin Laden! A barra está pesada por aqui!”. 

E como sempre eu faço quando estou apreensivo, alisou os cabelos e apertou o nó da gravata. Confesso que não fui com a minha cara; como eu sou medroso! Característica típica do padrão standard!

quarta-feira, 2 de março de 2016

A retórica do Imperador

A obra “O Imperador” de Conn Iggulden é ficção, mas o autor baseou-se em fatos reais da vida de Júlio César, o Imperador de Roma. Abaixo, algumas frases de César transcritas na obra:

“Um bom pai não estraga os filhos com presentes”.

“Precisamos de esgotos, segurança, comércio honesto e comida barata para viver”.

“Construímos para durar” (...) “Uma rua de cada vez, se for necessário”.

“Dê trabalho para que cada um produza o seu pão, e não fique na dependência da caridade oficial”.

São frases que continuam atuais, embora ditadas 100 anos antes de Cristo. A forma atual de educar os filhos, tanto dos pais quanto das escolas, é de um fracasso retumbante! O ato de dar presentes transformou-se em submissão perante os filhos, uma tentativa de comprar reconhecimento e respeito. Não mais uma retribuição ao bom comportamento, um presente por merecimento. Os pais querem comprar o amor dos filhos, uma maneira de apaziguá-los e compensar o distanciamento entre eles. Os pais estão separados da vida dos filhos e parece que há certo medo de perdê-los, de encarar a realidade ao ponto de confrontá-los. Não há avaliação de mérito em dar presentes, aliás, os próprios filhos escolhem o que querem e exigem que os seus pedidos se cumpram. Uma espécie de suborno afetivo.

Nas escolas, pior ainda. O presente é ser aprovado e “passar de ano”, pouco importa o grau de aprendizado do aluno. Poucas escolas ainda têm a coragem de reprovar um aluno. São raras. As escolas públicas são obrigadas a aprovar todos, estudiosos ou não, comportados ou bagunceiros, ordeiros ou violentos. Um professor de escola pública é humilhado na sala de aula, recebendo ofensas verbais ou físicas, mas é obrigado a baixar a cabeça, não pode reagir nem mesmo com o uso de sua autoridade para expulsar o aluno da sala. Aliás, professor não tem mais autoridade alguma. Esta é a educação que a criança recebe para o seu futuro. As escolas se defendem, dizendo que não lhes cabe educar, mas somente ensinar. Que a família eduque! Acabam não ensinando e nem educando.

Os serviços públicos são, desgraçadamente, vergonhosos. As coisas são feitas de qualquer maneira, apesar de verbas gigantescas que se esvaem nas valas gulosas das propinas e corrupções. O sistema de licitações públicas é de uma hipocrisia absoluta. Antes de iniciá-las já se sabe o vencedor, pois o chamado edital é feito por encomenda, dirigido especificamente para um dos concorrentes. As obras não são feitas para durar, todos de olho em futuras restaurações e mais verbas.

Há um trecho do livro de Iggulden em que alguém diz mais ou menos assim:

“se colocarmos uma segurança para proteger o povo dos ladrões, teremos, no futuro, de colocar outra segurança para proteger o povo da segurança anterior, que ocupará o lugar dos ladrões”. Parece ironia, mas é o que assistimos nos dias de hoje. A milícia foi um exemplo, a polícia, outra. Os bons policiais se perdem na avalanche dos malfeitores e fica a população desconfiada de todos, sem saber a quem pedir socorro. “Pega, ladrão, pega, ladrão!”, já cantava Chico Buarque.

A caridade oficial joga com a ignorância do povo, tentando comprá-lo com míseras dádivas. A estatística demonstra que o desemprego continua alto, mas os melhores cargos técnicos são pouco disputados por falta de candidatos aptos, a não ser para cargos públicos que não exigem experiência na função. E a esmagadora maioria não tem experiência e conhecimento técnico, porque os nossos jovens não recebem educação e ensino. Ou melhor, fingem que recebem. E o governo gosta de manter tal situação, pois diante de um povo devidamente educado perdem-se as rédeas do seu domínio. 

terça-feira, 1 de março de 2016

Os apuros do Prefeito

Da série: Contos Fantásticos

- Alô! É o professor? Como vai o senhor? Aqui é o Hilgurt, Prefeito de Titiquinha!
- Como vai, Prefeito? Tudo bem na sua cidade?
- A coisa tá preta aqui, professor! O dinheiro acabou todinho!
- É a crise, Prefeito.
- Eu estou precisando arrecadar, professor! Eu estava falando aqui com o Trúcio, o secretário geral, e ele recomendou ligar pro senhor. Ele disse que o senhor ajuda nessa coisa de arrecadar!
- Eu não conheço Titiquinha. Qual é a população do Município?
- Contando comigo tem 675 habitantes... Pera aí... O Trúcio! Dona Filó já morreu? Ainda não? Alo! Professor! Pode contar 674, porque tem uma senhora aqui que está nas últimas.
- Está certo. A Prefeitura cobra o IPTU?
- Ptiú? Pera aí... O Trúcio! A gente cobra ptiú? Não? Alô! Professor! A gente não cobra não, mas eu queria cobrar do Fritz, meu adversário político. Eu posso cobrar, não posso?
- Ele tem casa aí?
- Mora na fazenda dele! Esse Fritz cuida de boi.
- Então não pode.
- Mas ele é podre de rico! Não posso cobrar nada dele?
- Se ele é fazendeiro, só o ITR, mas o ITR é imposto federal...
- O Trúcio está dizendo que a gente podia cobrar o INSS... Pera aí... Como é Trúcio? Ah, o ISS!
- A gente cobra o ISS de quem presta serviço...
- Ele vive prestando serviço! Dá esmola pra todo mundo!
- De esmola a gente não pode cobrar ISS, Prefeito.
- E o alvará? Posso cobrar, não posso?
- Fazenda não é considerada estabelecimento para fins de alvará. Não pode cobrar não.
- Mas ele vende boi!
- Ele deve pagar ICMS como produtor rural, mas o ICMS é imposto estadual.
- Ah! Professor! O Trúcio está dizendo que a mulher do Fritz é Veterinária!
- Neste caso, se ela exercer a profissão a Prefeitura pode cobrar o ISS dela. E se ela tiver clínica veterinária na cidade, pode cobrar o alvará da clínica.
- Ela só trabalha na fazenda deles e não tem clínica.
- Bem, se ela só exerce a profissão na sua própria fazenda, vai ser difícil cobrar o ISS. E se não tem clínica, não tem alvará.
- Poxa, Professor! O senhor só atrapalha!
- O que eu posso fazer Prefeito? É preciso seguir a lei.
- Que lei?
- Ora, a lei do Município!
- Mas nós não temos lei nenhuma que trata disso!
- Nossa! Então a coisa é mais complicada ainda!
- O senhor é que complica! Muito obrigado por nada, Professor!
(E bateu o telefone).