quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A vacina contra o vicio

Mais uma invenção do extraordinário Lucca D’Epaminondas fracassou diante das liminares impetradas e aceitas na Justiça, e a firme oposição dos governantes de alguns países.

O fantástico cientista, agraciado com o título de Benfeitor da Humanidade, concedido pela ONU, foi impedido de fabricar a vacina popularmente denominada de Vacina Contra o Vício. Segundo o cientista, essa vacina age no cérebro e impede qualquer ato ou ação socialmente censuráveis ou nocivos à saúde. Exatamente em razão das dimensões de seus efeitos, a Justiça vem concedendo mandatos de segurança para aqueles que se sentem reprimidos e prejudicados com a adoção da vacina.

Um forte exemplo da abrangência de suas ações foi a declaração de uma das cobaias de que parou de roer as unhas após ser vacinado. Todas as cobaias foram voluntárias e escolhidas entre internos de presídios. Os presidiários deram testemunho de que depois da vacina perderam o desejo de fumar, de usar tóxicos de qualquer tipo, de agir violentamente contra outras pessoas, de esmagar uma barata e de coçar o saco escrotal na frente dos outros.

O filósofo ítalo-americano, Silvester Stallone, autor da obra prima “Os Mercenários da Esperança”, declarou em entrevista que a vacina de Lucca D’Epaminondas será o ato final do extermínio da humanidade, sob a qual somente os fracos e covardes terão vez. “A humanidade evoluiu e fortaleceu-se graças à sua natureza violenta, ousada e criminosa”, disse o filósofo.

Lucca D’Epaminondas defendeu a sua vacina dizendo apenas: “Acredito que a humanidade seria mais feliz sem certos vícios abomináveis”. Mas, os produtores de papoula do Afeganistão contestaram a posição do cientista, afirmando que a sobrevivência de milhões de afegãos depende do vício do ópio. A mesma tese foi levantada pela CCC – Cooperativa dos Cartéis de Cocaína, a favor dos produtores de coca da América Latina. “Realmente, a produção de papoula no Afeganistão é condição social a ser considerada das mais relevantes”, disse o Diretor da CIA, Georg W. H. Y. K. Bush.   

As indústrias tabagistas conseguiram mandato de segurança contra a vacina. Na petição afirmaram que o ser humano tem o direito constitucional de fazer o que bem entende em relação à sua saúde. Os governantes de alguns países explicaram que a receita tributária obtida com os fabricantes de cigarros é indispensável para custeio da saúde pública. “Sem essa receita não haverá recursos para investir nos serviços públicos de promoção da saúde em todos os seus ambientes”, disse o Secretário de Saúde da Franca, Déclouflé Souza Cruz.

No Brasil, o governador de um Estado declarou à imprensa ser contra a instituição da vacina. Disse o governador que uma de suas vitórias foi a promulgação da lei que proíbe o fumo em ambientes fechados. “Todos se lembram de mim quando olham a plaqueta que diz ser proibido fumar naquele local. Melhor, então, é permitir o fumo, mas proibi-lo de forma pontual”.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Violência na comunidade

Aqui na comunidade, novidades e boatos nascem na banca de jornais do Miranda, e dali seus efeitos são irradiados para todos os recantos com um crescimento constante de intensidade, a depender do entusiasmo dos porta-vozes e interlocutores. E, às vezes, um fenômeno extraordinário acontece: uma mesma notícia sai da banca de jornais e, depois, lá retorna em nova versão, com mais riqueza de detalhes e informações até então desconhecidas.

Como de costume, após caminhar na praia fui ao Miranda à cata de notícias. Um grupo já estava reunido a ler os jornais presos na banca, com alguns comentários, lá e cá, a maioria relacionada com os jogos do último fim de semana. Noticiário político ninguém comenta, tão pouco o cansativo mensalão, assunto desagradável e por todos desconhecido.

Foi Seu Broa, empresário do ramo da reciclagem e sabedor de novidades em vista de suas funções de catar latinhas nos lixos das casas, quem deu a notícia. Sem olhar para ninguém e de olhos fixados no jornal, disse em voz alta para que todos ouvissem: “Uma casa da Rua 12 foi roubada”.

Seguiu-se um silêncio de alguns segundos, necessário para que todos absorvessem o sentido da notícia. Seu Broa reiniciou: “foi na casa do Nestor”. Nestor é mecânico, consertador de carro de qualquer marca, só não cuida de hidramático. “A casa tava trancada?”, perguntou Lilico da Mercearia. Seu Broa respondeu: “O Nestor contou que a porta não tem tranca, ele perdeu a chave há muito tempo. Ele só encosta pro cachorro não entrar”.

Os presentes pensaram em suas casas, a maioria não tranca a porta, é falta de educação, como ensinou dona Berga, viúva de um sujeito que morreu de cirrose uns dez anos atrás. Dona Berga é muito respeitada na comunidade, porque fala enrolado e é russa. Aliás, aqui todos os estrangeiros são russos, inclusive japoneses, fica mais fácil o entendimento.

“Roubaram muita coisa?”, perguntei ao Seu Broa. “O Nestor disse ao cabo Miguel, vocês conhecem, lá da DPO, que só levaram o liquidificador e umas laranjas que estavam na geladeira”, respondeu. “Vai ver o ladrão queria fazer um suco”, comentou Cubicheque, do Açougue, mais conhecido pelo apelido Cubinho. Ninguém riu, o assunto era sério. Seu Broa prosseguiu: “O Nestor tinha saído com a família, foi visitar um parente na Baixada. Foi naquele Monza que ele tem. Quando voltou, a porta estava encostada, direitinho, mas deu falta do liquidificador. Depois, sua mulher disse que as laranjas tinham sumido”.

“Não levaram mais nada?”, perguntou o pedreiro Walmir. Seu Broa, alvo das atenções gerais naquela manhã, respondeu: “Nada, nada, não levaram o fogão, a geladeira, a televisão... Bem verdade que a única coisa nova era o liquidificador. Eles compraram no mês passado”.

Lilico lembrou-se de algo importante: “Ih, gente! Uma semana atrás a mulher do Nestor teve uma baita discussão lá na mercearia com uma vizinha, não vou dizer o nome, que reclamou da zoeira do liquidificador. A mulher do Nestor tem mania de acordar de madrugada e fazer vitamina para as crianças. Foi uma discussão danada! A vizinha reclamava do barulho!”.

Foram segundos de silêncio diante daquele grave depoimento do Lilico. Contudo, sentiu-se no ar o alívio de todos, talvez não fosse nada de ladrão. Passado o silêncio, Miranda disse em voz baixa: “Gente, acho melhor não espalhar esse negócio de discussão com vizinha. Vamos deixar que pensem que foi um ladrão”. “Por quê?”, perguntei.

E Miranda explicou: “Ora, doutor, a nossa comunidade é muito atrasada! O senhor está vendo o exemplo agora? Nem político vem aqui fazer campanha! Aqui não tem quadrilha, não tem roubo de carro, não tem sequestro, não tem esse negócio de tráfico, não tem tiroteio, aqui não acontece nada de importante!! Essa notícia de roubo pode ser o início de uma nova era, vai sair nos jornais, na televisão, vamos ser notícia! Quem sabe até instalem uma polícia pacificadora aqui, já imaginou?”.

E percebendo que eu ainda estava relutante, arrematou: “Doutor, com a polícia pacificadora talvez até instalem um teleférico horizontal, ou uma escada rolante na praia, para os idosos que os médicos obrigam a caminhar”.

Essa ideia já me deixou mais animado. O Miranda é muito persuasivo.

domingo, 2 de setembro de 2012

Conversa de Fiscais III

“Agatha Christie” ataca outra vez.


- Bom dia!
- Bom dia não! Boa noite! Isso é hora de chegar? Se aqui tivesse relógio de ponto você estaria ferrado!
- E você sabe que andaram falando em instalar relógio de ponto para Fiscais? Olha que absurdo! Nós teríamos que vir até aqui todas as manhãs bater o ponto, e depois sair para fiscalizar. E no fim do expediente a mesma coisa!
- Concordo que é um absurdo, uma perda de tempo. Fiscal tem que ser avaliado por produção e não por horário. Mas nos dias de plantão temos que chegar no horário, você não concorda, seu dorminhoco!
- Eu não estava dormindo! Fui fazer uma averiguação...
- O quê? Então você está dando uma de Poirot?
- Já é a segunda vez que você fala neste tal de Porrô. Não sei quem é esse Fiscal.
- Não é Fiscal, cara! É o detetive Hercule Poirot, personagem da Agatha Christie...
- Ah, aquela gata inglesa... Mas deixa te contar, você se lembra daquela firma que veio aqui para pegar autorização de nota fiscal? Disse que não conseguia entrar pela Internet...
- Lembro e não vi novidade nenhuma; este sistema de nota fiscal eletrônica vive dando pau, saindo do ar, uma loucura...
- Pois é, contratam um sistema, pagam um dinheirão e a coisa não funciona...
- E nem nos consultam! E ainda querem que a nossa legislação se adapte ao sistema, quando o sistema deveria se adaptar à legislação! Daqui a pouco o legislador municipal passará a ser as empresas de informática!
- Não falta muito pra isso! Mas deixe eu te contar: achei estranho o endereço daquela firma, porque é no bairro onde moro e nunca soube de firma de gráfica naquela rua.
- E você foi até lá dar uma espiada?
- Exatamente! E sabe o que encontrei no endereço?
- Uma residência particular.
- Nem isso! Encontrei um terreno baldio!
- Terreno vazio? Sem nada?
- Sem nada, nem muro, completamente abandonado!
- Que estranho... Gráfica tem máquinas, tem empregados...
- Pois é. E você viu o faturamento dela?
- Eu não vi nada, quem atendeu foi você.
- Eu vi! Receita de empresa grande! Nem é do Simples! Olhei as notas fiscais anteriores e só tem clientes poderosos, quase todos lá da Capital!
- Mas o ISS é nosso! Está pagando?
- Tudo direitinho...
- Então, onde será que ela faz o serviço... Me diz uma coisa, você sabe qual é a alíquota de gráfica na Capital?
- Lá eles não perdoam, é tudo 5%.
- E aqui gráfica paga 2%... Acho que este é o motivo...
- Você está dizendo que esta sede da empresa é de mentirinha?
- É lógico! Ela deve ter uma oficina escondida lá na Capital.
- E finge que a sede é aqui para pagar 2%...
- Está na cara, não é?
- É... Pode ser isso... E o que devemos fazer?
- Olha, de certa forma o nosso Município está ganhando, mas não gosto de compartilhar de falsidades, e isso é uma imoralidade!
- Por que imoralidade? Isso não seria aquele negócio de elisão?
- Elisão? Fingir que tem sede num terreno baldio? Isso é pouca vergonha, isso sim!
- Na verdade eu nunca entendi esse negócio de elisão.
- Elisão é quando se aproveita da lei para pagar menos tributo. E está na cara que a nossa lei não permite uma gráfica fantasma, localizada num terreno baldio!
- E eu fico pensando como conseguiram o alvará...
- Xiii! Ainda deram alvará? Então, não houve vistoria, não houve nada!
- Pois é, tem gente aqui da casa envolvida neste trololó. Você não acha melhor a gente ficar quieta e deixar pra lá?
- Claro que não!! A dupla Tommy e Tuppence Beresford vai entrar em ação! Vamos pedir ao chefe uma ordem para fiscalizar essa empresa e jogar a sujeira no ventilador, doa a quem doer!
- Meu Deus! Lá vamos nós criar confusão novamente...
- Fiscal não cria confusão, Fiscal apura os fatos! É pra isso que somos pagos!!
- É, aquele dinheirinho mixuruca que entra todo mês... Bem, pelo menos eu vou ser este tal de Tommy... Gosto mais deste do que aquele outro, Porrô! Você inventa cada nome!!