sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Eleições para Vereador II

Ontem não tive maior espaço para explicar a plataforma de governo dos dois candidatos a vereador aqui da comunidade, Chinelinho e Índio da Verdura. Não que me interessa promessas de políticos, mas importante conhecer as diretrizes filosóficas dos nossos candidatos, se socialista ou liberalista, ou nem uma coisa nem outra, quem sabe uma nova ideologia possa surgir na cabeça desses insignes candidatos à vereança. Afinal, ainda acredito no surgimento de um novo e revolucionário pensamento político depois da derrocada do comunismo burocrático e do capitalismo canibal. E tudo começa na vereança, geralmente o marco inicial da carreira política.

Chinelinho é mais rico de ideias, talvez por sua atividade profissional de biscateiro, pau pra toda obra, como dizem aqui os comunitários. Uma de suas promessas de campanha é o (desculpe a expressão) “Guarda-Merda”. Seria um triciclo com um tambor na traseira a ser utilizado como depósito da gordura recolhida das caixas, trabalho executado pela Prefeitura. Muito interessante a ideia, pois um dos problemas na limpeza das caixas de gordura é justamente saber onde despejar o material retirado. Comentei ao Chinelinho que as senhoras ficariam constrangidas em solicitar os serviços do Guarda-Merda, por causa do nome, expressão chula e desagradável. Ele me respondeu que a comunidade adotará a sigla, GM, e ninguém vai se lembrar que GM significa Guarda-Merda.

Ao perguntar sobre o custo do serviço, Chinelinho explicou que a Prefeitura cobrará uma taxa, cuja denominação jurídica será “Taxa de Armazenamento da Merda Domiciliar” – TAMD, e o valor seria calculado por quantidade de litros de merda recolhidos. Vocês pensam que Chinelinho é bobo? Nem um pouco.

Índio da Verdura vive em torno de sua profissão, comercialização de legumes, verduras e hortaliças. Por isso, sua plataforma política está assentada na produção e consumo de tais produtos. Quando soube do projeto GM do concorrente Chinelinho, propôs uma coalizão política pela qual sairia um projeto de lei conjunta, estabelecendo que os materiais armazenados no Guarda-Merda fossem usados nas hortas comunitárias como adubo natural. “O doutor já se imaginou comendo uma verdura que cresceu viçosa da própria merda que o senhor mesmo evacuou?”, perguntou o candidato naturalista-ecologista. Fiquei imaginando...

Perguntei se as hortas comunitárias não prejudicariam o seu negócio de vender verduras. Disse que não, explicou que ao ser eleito deixaria de vender verduras, galgaria novas posições, um atravessador, quem sabe, sempre gostou da palavra atravessador, embora não saiba o seu significado. Faria a administração das hortas comunitárias, controlaria a produção, teria caminhões para transportá-la, empregados e assessores, instalaria sacolões, teria contador, faria registro no super-simples, já ouvira a respeito, sonegaria impostos, o seu celular, quando tivesse, seria grampeado... E segurando a bicicleta das verduras com as mãos trêmulas e olhando para o céu com aqueles olhos enviesados, ele disse: “Eu tenho um sonho...”. Cheguei a me arrepiar, parecia Martin Luther King.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Eleições para Vereador

Estou na dúvida em quem votar para vereador: se voto no Chinelinho ou no Índio da verdura, os dois candidatos aqui da comunidade (você sabe que agora não se fala mais em bairro, fala-se comunidade). Os dois são bons.

Chinelinho é mais versátil, é um “faz-tudo”; poda as árvores, limpa caixa de gordura, pinta parede, conserta liquidificador, qualquer problema o Chinelinho resolve. Bem, resolve mais ou menos, minha mulher já reclamou, em matéria de pintura não chama mais o Chinelinho, faz uma borração danada.

O Índio da verdura é mais discreto. Vende suas verduras de porta em porta, com sua enorme bicicleta, e sempre tem uma notícia sobre os acontecimentos na comunidade. Alguém morreu, alguém enganou o marido, ou vice-versa, houve troca do carteiro, o caminhão do gás quebrou, vai faltar luz (não sei como ele sabe, mas sempre acerta, deve ter alguma ligação com o pessoal da luz). Ao contrário do Chinelinho, Índio não sabe o nome de ninguém, mas, delicadamente, chama todo mundo de doutor e as mulheres de madame.

Segundo minhas análises, Chinelinho tem mais potencial. Fala pelos cotovelos, até lá em cima da árvore não para de falar, isso deve ser bom para vereador. E dá os seus palpites, tem opinião própria sobre qualquer assunto. O Índio, não, apenas dá notícias, por isso eu o considero mais discreto, grandes possibilidades de ser líder do partido.

Já perguntei aos dois se eles gostam de ler jornal. Como vocês sabem, vereador que se preza tem que ler jornal durante as sessões da Câmara. Chinelinho respondeu que não gosta de ler jornal, tem dificuldades com as letrinhas da imprensa. Acha que é problema na vista. Índio da verdura respondeu que não gosta de ler jornal por que dá dor de cabeça. Deve ser problema de vista também. Deste modo, os dois terão que ficar falando no celular durante as sessões, não tem outro jeito.

Indaguei sobre os projetos de campanha. Chinelinho tem várias ideias: promover um forró todo fim de semana aqui na praia; criar o Dia do Podador de Árvore (a data será do seu aniversário, nada mais justo); criar uma lei obrigando que os tijolos já venham pintados ou, pelo menos, emboçados. Achei esta fantástica. Índio da verdura propõe criar a Bolsa da Verdura, subsidiada pela Prefeitura, uma proposta que envolve o social e a saúde, muito boa.

Estou assim nesta dúvida. Acho que serei salomônico, voto em um e minha mulher vota em outro. E o problema está resolvido.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Lambisgoia

Lambisgoia (antigamente usava-se acento no o, hoje não) é uma palavra em desuso e a juventude não a conhece. Lambisgoia pode significar: mulher antipática; mulher afetada e pretensiosa; e mulher mexeriqueira e intrometida. Aliás, lambisgoia é expressão exclusiva para mulher, não existe homem “lambisgoio”, não sei o motivo. Não podemos, então, dizer “Vossa Excelência é um lambisgoio”, está errado, mas, se a Excelência for mulher, pode usar lambisgoia à vontade. Diferente, portanto, da palavra presidente; homem pode ser presidente e mulher presidenta.

Minha mãe usava essa palavra no sentido de afetada ou pretensiosa. Se fosse mulher mexeriqueira, minha mãe a intitulava de fofoqueira e todo mundo entendia.

Estou falando isso ao ler a notícia de que a mulher (namorada? Noiva? Esposa? Não sei) de um honrado cavalheiro trancafiado na prisão, tentou fazer chantagem com o juiz para soltá-lo. Mostrou ao juiz documentos de sua suposta amizade com três pessoas aparentemente nefastas e ameaçou publicar tais documentos, caso a juiz não liberasse o distinto namorado, noivo ou marido.

Sem dúvida, uma mulher lambisgoia no sentido de pretensiosa, minha mãe diria. Mas, ameaçar um juiz por meio de chantagem também é um ato criminoso. Chantagem é uma forma de constranger alguém, por violência ou grave ameaça, com intuito de obter uma vantagem. Está lá no art. 158 do Código Penal.

Curiosa a reação do juiz em simplesmente expulsar a lambisgoia do seu gabinete. Não seria motivo de incontinenti ordem de prisão? Conheço um caso de um empresário oferecer propina a um Fiscal. Este foi à polícia e denunciou o fato, mas a polícia explicou que sem provas materiais nada podia fazer, e tudo ficou por isso mesmo. Entretanto, Fiscal é Fiscal, Juiz é Juiz, não teria este a presunção da legalidade e veracidade ao afirmar a coação sofrida? Ou esse negócio de fé pública não tem qualquer serventia?

Sou do tempo que falar com juiz no seu gabinete só faltava ajoelhar-se. Era Excelência pra lá, Excelência pra cá e o juiz, posudo na sua cadeira alta, somente olhava o vil mortal à sua frente em raríssimos momentos. Ficava examinando os processos existentes na sua mesa, enquanto o mortal falava, falava. No final, um sussurro grave de “está bem, vou examinar o seu caso”, ou, então, “vou ver o que pode ser feito”, e encerrava-se a audiência. E o cidadão saía do gabinete andando de costas, a curvar o pescoço, dizendo “obrigado, Excelência”.

Os jovens podem pensar que isso é um exagero, mas aquele comportamento vetusto já impedia qualquer tentativa ousada de se fazer propostas indecorosas ao magistrado. As pessoas se borravam de medo diante de tamanha seriedade.

Eu sei que os tempos mudaram. Já vi juiz presidir sessão calçando tênis, tudo faz parte dos tempos modernos. Mas, chegar ao gabinete e fazer chantagem, isso eu nunca tinha visto acontecer. Daqui a pouco, uma lambisgoia qualquer terá a ousadia de oferecer propina a um juiz! Não!! Estou exagerando! Isso nunca acontecerá.