quarta-feira, 13 de julho de 2011

Manicômio Fiscal XX

Cenário: Rua principal de pequena cidade. Personagens: Fiscal antigo e contribuinte cuja empresa vivia irregular, não sabendo quanto recolher de tributos, e, por isso, sempre pedindo ajuda ao Fiscal para fazer as contas e emitir as guias. Os dois se encontram.
Sobe o pano.
Fiscal – Seu Beneplácito!! Há quanto tempo!!
Contribuinte – Uma eternidade! Seculum Seculorum!!
Fiscal – Distanciou-se da Prefeitura...
Contribuinte – Milhas e milhas, estou navegando em outros mares! E o senhor continua na Prefeitura?
Fiscal – Continuo, mas estou para me aposentar... Vou dar lugar a sangue novo.
Contribuinte – Sangue dos jovens!! Sangue novíssimo, jorrando nas veias!!
Fiscal – É verdade, mas ainda inexperientes...
Contribuinte – Experiência zero!! Reprovados em curso a distância!!
Fiscal – Mas acabam aprendendo...
Contribuinte – Aprendem tudo!! São verdadeiros computadores! Digitou, salvou, gravou!!
Fiscal – Seu Beneplácito, que ninguém nos ouça, mas como são orgulhosos esses Fiscais novos...
Contribuinte – Soberbos!! Se ufanam pelos corredores!! Estufam o peito como pombas no cio!!
Fiscal – Mas deixa pra lá, o problema não é nosso...
Contribuinte – Muito pra lá!! O problema é lá da Austrália, do Japão!!
Fiscal – Mudando de assunto, e o Prefeito atual, o que o senhor acha dele?
Contribuinte – Isso mesmo, vamos mudar de assunto, e o Prefeito?
Fiscal – Meio confuso...
Contribuinte – Está totalmente perdido! Está controlando marimbondo no escuro!
Fiscal – E muda de partido, depois volta...
Contribuinte – Vai e volta! Casa e separa, casa e separa! Uma paranóia conjugal!
Fiscal – Ele está num dilema...
Contribuinte – Já é trilema, um polilema!! É lema pra tudo que é lado!
Fiscal – O que salva é que ele está grudado com o Governador...
Contribuinte – Unha e carne!! São irmãos gêmeos!!
Fiscal – Por isso, eu acho que ele não sai mais do PMDB...
Contribuinte – Não sai mesmo!  Está encravado no PMDB! Uma rocha firme!
Fiscal - Mas se não derem espaço, ele se manda...
Contribuinte - Abanando lencinho branco! Beijinho, beijinho, tchau, tchau!
Fiscal – Bem... E a sua firma? Continua a desordem...
Contribuinte – Desordenada! Destramelada! Uma bagunça generalizada!!
Fiscal – Desculpe lhe dizer isso, mas o senhor tem mania de não cumprir as instruções do Contador...
Contribuinte – Eu sou um verdadeiro maníaco!! Atropelo tudo, misturo tudo!
Fiscal – É um problema de gestão, seu Beneplácito.
Contribuinte – Já é um problema de congestão! De diarréia gerencial!!
Fiscal – O senhor sabe que pode sempre contar com a nossa ajuda, sem interesse algum de nossa parte.
Contribuinte – Totalmente desinteressada! O senhor é um magnânimo! Deveria receber o prêmio do BED!!
Fiscal – BED?
Contribuinte – Benfeitor dos Empresários Desorganizados!!
Fiscal – Mas, então, o senhor nunca mais foi à Prefeitura...
Contribuinte – Morro de saudades!! As lágrimas borbotam!!
Fiscal – Por que, então, o senhor não volta mais lá?
Contribuinte – Porque agora eu sou do Simples Nacional!!
Fiscal – Ahh...
Desce o pano.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Manicômio Fiscal XIX

Cenário: Repartição da Fiscalização de Posturas. Personagens: Fiscal e uma idosa senhora, magrinha e pequenina, toda vestida de preto e portando bolsa a tiracolo e um guarda-chuva, apesar do dia ensolarado e céu azul de brigadeiro. Ela se expressava em tom baixo, mas de forma clara e incisiva.
Sobe o pano.
Senhora – Bom dia, cavalheiro. Estou aqui para fazer denúncias. Eu me chamo Senhorita Dulce, mais precisamente, Maria Dulce. Moro no bairro do Sofrimento, na Rua do Calvário.
Fiscal – Bom dia, dona Dulce. Qual é a denúncia?
Senhora – Bem, vamos ver...
(E retirou da bolsa um grosso livro de capa preta).
Senhora (folheando o livro) – Em primeiro lugar, vamos tratar do morador da casa número 102. No dia 18 deste mês, ele jogou um sofá velho no canal do rio. Precisamente, às 6 horas e quatorze minutos.
Fiscal – A senhora viu?
Senhora – Claro que eu vi. Faço plantão na janela da minha casa a partir das 6 horas e anoto todas as irregularidades. O senhor não vai tomar nota?
(O Fiscal, em tanto constrangido, puxa uma folha de papel e finge anotar).
Senhora – Acredito que uma folha somente não vai ser suficiente, mas se o senhor tiver uma letra miudinha, talvez seja possível.
Fiscal – Tem mais denúncias?
Senhora – Eu estou apenas iniciando. No dia 20 deste mês, mais precisamente, às 21 horas e vinte e dois minutos, um bêbado passou cantando alto na rua. Vestia bermudas e estava sem camisa, apesar da friagem da noite.
(O Fiscal fingia que tomava nota).
Fiscal – Mais alguma coisa?
Senhora – São inúmeras denúncias... Este mês foi rico em irregularidades... No dia 21, às 15 horas e oito minutos, o carteiro bateu palmas na casa de número 108 e entregou correspondência ao proprietário. Este, ao examinar a correspondência, rasgou uma delas. Consegui enxergar, com o uso do meu binóculo, que parecia ser o carnê do IPTU.
Fiscal – A senhora tem certeza?
Senhora – Tenho certeza, levando em conta o fato de que, naquele dia, o carteiro entregava o carnê do IPTU em todas as casas. Mas, é bom o senhor anotar o agravante.
Fiscal – Que agravante?
Senhora – Não só rasgou, mas jogou na rua o carnê rasgado.
(E assim, a dona Dulce foi relatando todos os fatos apurados. Quase duas horas depois, ela encerra a narrativa).
Senhora – Bem, são essas as irregularidades do momento.
(Ufa! Pensou o Fiscal).
Fiscal – Está certo, dona Dulce, vamos ver o que poderemos fazer em relação às suas denúncias... Muito obrigado e tenha um bom dia.
Senhora – De fato, tenho que retornar, porque deixei a minha empregada me substituindo na janela, e ela tem ainda que arrumar a casa.
Fiscal (levantando-se) – Perfeitamente! Um bom dia pra senhora...
Senhora – Um momento, por favor. Gostaria que o senhor lesse tudo que anotou, porque no caso de qualquer coisa errada, podem me acusar de mentirosa, e isso eu não admito.
Desce o pano.

domingo, 3 de julho de 2011

Manicômio Fiscal XVIII

Cenário: Terminal Rodoviário de um Município. Personagens: Fiscal de Posturas (apelidado pelos colegas de “Muralha”), Despachante da empresa de ônibus e Motorista do ônibus.
Sobe o pano.
Fiscal – Oh Excelência! Venha aqui, por favor!
Despachante (aproximando-se) – O senhor me chamou?
Fiscal – Sim, Excelência.
Despachante – Eu não sou Excelência...
Fiscal – Eu chamo todo mundo de Excelência, entendeu?
Despachante – Por quê?
Fiscal – Porque na rua eu nunca sei quem é quem. Um dia, eu chamei um cara de você e ele era juiz, me deu uma descompostura... Reclamou na chefia... Pra não dar mais confusão, chamo todo mundo de Excelência, entendeu agora?
Despachante – Perfeitamente... O que o senhor deseja?
Fiscal – Avise àquela Excelência ali que ele parou o ônibus no lugar errado. Está fora da sinalização.
Despachante – Pode deixar, vou avisar ao Motorista.
(O Despachante afastou-se e foi conversar com o Motorista. O Fiscal percebeu o Motorista gesticulando e olhando raivoso para ele. O Despachante retornou).
Despachante – O Motorista disse que está no lugar certinho.
Fiscal – Oh Excelência! Por acaso eu sou cego? Olha a faixa amarela e me diz se o ônibus não está em cima da faixa.
Despachante – É um pouquinho só, não está atrapalhando ninguém.
Fiscal – Está sim! Está me atrapalhando! Se tem faixa é pra obedecer! Manda a Excelência acertar o ônibus se não eu vou autuar!
Despachante – Está certo, vou falar com ele.
(O Despachante afastou-se e foi conversar com o Motorista. O Fiscal, de longe, observa. O Motorista esbraveja, entra no ônibus e dá um arranco, recua e põe o ônibus no lugar correto. Sai do ônibus e grita olhando o Fiscal).
Motorista – Fiscal de merda!! Só aporrinha a gente! Não tem o que fazer!
(O Fiscal ouviu e aproximou-se do Motorista).
Fiscal – Por acaso, vossa Excelência está se dirigindo à minha pessoa?
Motorista – A você e a todos de sua laia!
Fiscal – Vossa Excelência sabe o que é desacato à autoridade?
Motorista – Que autoridade? Autoridade de merda que você é!!
Fiscal – Se o senhor não se desculpar, serei obrigado a autuá-lo.
Motorista – Não vou me desculpar porra nenhuma, ta entendendo?
Fiscal – Vossa Excelência não vai depois reclamar, está certo?
Motorista – Vai autuar a sua mãe!!
Fiscal – Então, Vossa Excelência está autuada!
(E disparou um violento soco no nariz do Motorista, que se esparramou no chão, com o rosto ensanguentado. O Despachante veio correndo).
Despachante – O que aconteceu?
Fiscal – A Excelência aí me desacatou e eu fiz a autuação. E avise a todas as Excelências que estão aí me olhando... Se estacionar fora da faixa eu autuo.
(E o Fiscal Muralha foi embora tranquilamente).
Desce o pano.