domingo, 15 de setembro de 2013

O Puxa-saco e o Mensaleiro

- Senhor! Desculpe interromper o seu drink, mas não posso perder a oportunidade de transmitir-lhe a minha modesta, porém sincera solidariedade contra as maldades e perseguições contra a sua preciosa pessoa.
- Obrigado, meu amigo. Eu lhe conheço?
- Acredito que não, nunca tive esta honra. Eu me chamo Pedro Vai de Caminha, um dos ramos da família de Pero Vaz Caminha, aquele que escrevia ao Rei Dom Manuel...
- Ah, sei, conheço a história... Quer beber alguma coisa comigo? Estou sozinho nesse bar...
- E essa moça que está sentada no seu colo... Eu devo estar atrapalhando...
- Ah, esta moça... Eu nem me lembrava dela... Ando deprimido, pensamento longe...
- Imagino, excelência, imagino... Mas agora, pelo menos, há uma luz no fim do túnel... Os embargos infringentes...
- É verdade... Talvez, agora, o túnel não acabe nunca...
- Desculpe, excelência, mas não entendi.
- Coisa de advogado! Se perdermos este embargo, entraremos com outro embargo infringente contra esta decisão, e, assim, sucessivamente, até a mudança de todos os ministros adversários.
- Interessante! Eu não tinha pensado nisso...
- Pois é, mas o que eu gostaria mesmo seria sair deste túnel como inocente, e não ficar sendo obrigado a aumentá-lo de tamanho. Isso é um pesadelo!
- De fato, uma crueldade prolongar tal agonia!
- Um suplício, meu amigo! E logo contra mim que sempre pautei pela honestidade! Todos os meus atos ilícitos foram norteados pela decência, pela moralidade!
- Eu sei disso! O senhor sempre foi um ladrão honesto!
- Honestíssimo! A quadrilha em que eu participava era imbuída dos mais elevados propósitos, sempre voltados para o bem do país!
- Exatamente! E o senhor nem chefe da quadrilha era! Era apenas um modesto comparsa!
- Bem, nem tanto, mas lamento não ter sido chefe da quadrilha. Se eu fosse o chefe não permitiria que tudo chegasse a esse descalabro.
- Não tenho dúvida! Tenho certeza que o senhor tomaria os devidos cuidados...
- Evidente! O desvio de dinheiro seria mais cuidadoso, melhor planejado. Eu não deixaria ponto sem nó!
- Exatamente! O senhor sempre foi comedido na roubalheira.
- Comedidíssimo! O meu lema sempre foi: “Roubo, mas nos limites da lei”.
- Foi uma pena, não é mesmo, excelência?
- É mesmo... E tudo já estava planejado para eu ser o futuro chefe.
- Da quadrilha?
- Não! Da presidência. 


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