segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Relatório Fiscal (III) - 2ª Parte


(Continuação)

2ª Parte.

De volta ao relato da viagem, horas depois, finalmente, surgiu ao longe uma casa, meio escondida em um grotão da serra, por onde a estradinha, ali úmida e escorregadia, já brotando grama rala no caminho e visgo nas pedras, sinais de estrada de pouco uso, descia quase em queda livre, perigo que não ia me esmorecer, apesar da minha apreensão em depositar a minha segurança naqueles suspeitosos freios do velho carro, problema que tenho a certeza V. Sª corrigirá em breve.

Segui animado, porque casa significa gente, e como prova de certeza ao meu próprio convencimento da vida existente, uma fumaça rolava da chaminé, a lembrar-me desenhos ou garatujas de crianças, o cenário bucólico da vida campestre que se resume a uma casa quadrada, feita de tijolos de barro, rústica, todavia, a irradiar sinais de segurança e aconchego, casa plantada ao pé da grande montanha, tão pequenina perante o mundo, mas, do jeito que está, assim, protegida pela sombra da serra, ela se aviva, parece movimentar-se, agiganta-se, tudo graças à fumaça que brotada de suas entranhas sobe dançando nas alturas.

Havia uma porteira, cerca de arame e mourões firmes, devidamente perfilados, com os arames passando através de perfurações simetricamente produzidas na madeira, prática fora do costume da região, muito estranho encontrá-lo, técnica do meu conhecimento em vista da longa experiência e tantas viagens em diversos brasis, pois sabe muito bem, Senhor Diretor, que não basta o estudo sem o sustento da experiência acumulada, motivo evidente do triste desenlace daquele colega, V. Sª sabe do que estou falando, e peço desculpas em lembrar a trágica ocorrência, pois faltou ao jovem auditor a necessária experiência de perceber que naquele momento era mais indicado meter sebo nas canelas, em vez de conduzir-se sob o impensado impulso de enfrentar às unhas um touro a soltar fogo pelas ventas, onde já se viu, coitado.

Abri a porteira e dirigi o carro sobre um quintal gramado, ao lado se via uma bela horta de alface e chicória, tomateiros ao fundo, tudo bem cuidado, dava-se para perceber o zelo do dono da propriedade, e parei o jipe na frente da casa, mas com toda aquela zoeira do motor (V.S.ª não há de esquecer, por favor), não apareceu ninguém, fato inusitado em tais situações, quando o barulho do motor de um carro exerce extraordinária atração às crianças, fazendo-as surgir em correria de todos os lados, qual mariposa atraída ao lume do lampião, para depois, visto ser a visita pessoa estranha, elas, acanhadas, rodeiam a margem, estrategicamente afastadas e no aguardo, com os dedos metidos na boca, da chegada de um parente adulto, presença que as encorajam a invadir o carro e matar todas as suas curiosidades.

Gritei o usual “ô de casa!”, e depois de repetir a chamada várias vezes, surgiu na porta um estranho indivíduo, deixando claro a V. Sª que não era estranho pela vestimenta, pois calçava botinas, vestia uma desbotada calça jeans e camisa de algodão grosso, roupa comum do pessoal do campo, além de ser alto e forte, nada a estranhar também, mas aquele homem, aquela criatura, ao meu espanto, tinha algo de peculiar e que nunca, em tempo algum, este relator havia visto! Senhor Diretor! Nesta vida de tantas e tantas viagens, nunca me fora dada oportunidade de ver coisa igual! Ele era dotado de duas cabeças! Isso mesmo que V. Sª leu! Duas cabeças! O que me deixou, confesso, em estado de profunda perplexidade.

Peço desculpas pela imodéstia, V. Sª me conhece, pois sempre me considerei uma pessoa discreta e acostumada às aberrações deste mundo, que não são poucas, fazendo-me lembrar daquela passagem do homem que tinha seis dedos em cada mão, motivo de minhas desavenças com aquele imbecil da assessoria, desculpe o palavreado, cujo nome recuso-me a escrever, a chamar-me de mentiroso, para depois enfiar a cara no tacho quando lhe mostrei a foto do homem com a mão espalmada. Desta vez, porém, foi difícil manter a situação sob controle e adotar uma atitude discreta, ao ter à minha frente, um homem de duas cabeças, ora, bem diferente se fosse, por exemplo, um homem de três pernas; eu simplesmente evitaria olhar para baixo; ou se fosse corcunda; eu fingiria não perceber a anomalia, mas como poderia, senhor Diretor, ou como podemos evitar a visão do rosto de uma pessoa?  E tendo dois, qual deles encarar? Olhar para o céu, abaixar os olhos? Por Deus! Agir desse modo seria uma grosseria!  Mesmo assim, apesar do atribulado estado de espírito, não entrei em pânico e procurei disfarçar da melhor forma possível a surpresa que me causava a visão daquela deformidade.

Ajudou-me também a lembrança de outro caso de xifópago por mim presenciado em andanças no mato grosso, um bezerro nascido com duas cabeças e o fazendeiro sem saber o que fazer com ele, problema resolvido graças a uma sucuri faminta que o engoliu, quando deixado estrategicamente em sua trilha habitual e já conhecida dos campeiros. A enorme serpente deve ter lá pensado com seus anéis, “que sorte! De um bote só peguei dois bezerros”, cobra não perde tempo de conjecturar sobre anomalias, “coitadinho, que tristeza nascer assim”, a fome dispersa sentimentalismos, e ficamos de longe assistindo o demorado trabalho da predadora em tragar a presa, ou as presas, questão totalmente irrelevante para a cobra.  

Sobrepujou-se, assim, a longa experiência investigativa da minha vida de auditor, o que me proporcionou, instintivamente, perceber, enquanto o homem caminhava em minha direção, as diferenças entre as duas cabeças, tendo uma delas a aparência mais velha, enrugada, magra, olhos encovados e a pele gasta no tempo e curtida ao sol, a usar um roto chapéu de palha, enquanto a outra possuía uma pele lisa, faces rosadas e gordas, e sobre a cabeça um belo chapéu de couro castanho.

Já próximo de mim, o aparentemente mais velho (deixo aqui registrada a inverosimilhança de tal suposição, mais velho, mais jovem, se certamente nasceram na mesma data, pois frutos do mesmo corpo), perguntou-me: “pois não?”. Procurei responder com a maior naturalidade possível: “estou procurando o caminho da Fazenda Morena, os senhores poderiam me ajudar?”.

Perceba, Senhor Diretor, o grave risco por mim assumido de cometer um erro grotesco na formulação da minha pergunta, diante da angustiosa dúvida em saber se acertara ao tratar aquele homem no plural, como se fossem duas pessoas, ou seria, de fato, uma só pessoa? Tenho certeza de não estar exagerando nas reflexões, todas afloradas em uma fração exígua de tempo, o de responder aos gêmeos siameses. E se eu estivesse errado, se o tratamento correto fosse o singular, como reagiriam? Entenderiam minha pergunta instigada por um aparente preconceito? Sem dúvida, eram cabeças diferentes, uma delas, mal tratada, a outra, bem conservada, mas não seriam partes de um mesmo corpo, uma só unidade, uma só vida? A partir de que momento, ou em que estágio de vida, eles poderiam afirmar a individualidade de cada um? Fiquei assim, a refletir a respeito de tais questões, e acabei por decidir a favor da pluralidade do ser, mas, posso garantir, foi uma decisão difícil diante da minha total inexperiência em conversar com uma só pessoa, porém, portadora de duas cabeças, e ainda, a ampliar o grau de dificuldades, em nada semelhantes. Felizmente, a minha decisão foi a mais acertada, como veremos.

(continua)

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